FGF Conecta
FGF Conecta recebe Gabriel Bussinger para debater metodologia de treinamento e transição da base ao profissional

Luiz Breves
Atualizado há 11 horas

Palestra reuniu representantes de clubes gaúchos e demais profissionais | Foto: Luiz Breves/FGF


A Federação Gaúcha de Futebol - FGF realizou, na última segunda-feira (26), mais uma edição do projeto FGF Conecta. Com o tema “Transição base-profissional e organização metodológica-estrutural do treinamento”, a palestra foi conduzida por Gabriel Bussinger, coordenador técnico-geral/metodológico e instrutor da Conmebol, CBF Academy e OFC, e reuniu representantes de clubes gaúchos das categorias de base e demais interessados no desenvolvimento de jovens atletas. O encontro ocorreu no auditório da FGF, com mediação de José Cícero Moraes, doutor em Ciências do Desporto e mestre em Ciência do Movimento Humano.


Antes da palestra, Gabriel foi recebido pela diretoria da Federação, representada pelo presidente Luciano Hocsman; pelo vice-presidente, Antônio Luiz Dal Prá; pelo secretário-geral, Mauro Rocha; pelo diretor financeiro, Marcelo Ducati; pelo diretor jurídico, Gilson Kroeff; pelo diretor de segurança e ouvidor-geral de competições, Cel Rogério Stumpf Pereira Junior; e pelos coordenadores do FGF Conecta, Ademir Calovi e José Cícero Moraes.


Durante a recepção, o palestrante compartilhou ideias sobre a formação de atletas nas categorias de base e participou de uma conversa com os presentes sobre os processos de captação de jovens no futebol brasileiro. Na ocasião, também recebeu de Luciano Hocsman uma camiseta comemorativa da Seleção Gaúcha de 1972, em referência a um dos momentos históricos da Federação.


METODOLOGIA, IDENTIDADE E DESENVOLVIMENTO DE ATLETAS


Na primeira parte da palestra, Gabriel Bussinger abordou o papel da coordenação técnica na construção dos processos metodológicos de um clube. O profissional ressaltou a importância de respeitar e valorizar a identidade de cada instituição, estruturando uma metodologia alinhada à sua cultura e aos comportamentos que se pretende desenvolver nos atletas.


Como exemplo, apresentou o trabalho realizado no Vasco da Gama, onde organizou princípios metodológicos para orientar a formação dos jogadores. Entre as características valorizadas, destacou a disposição para aprender, o pensamento crítico, a coragem, a integridade e o desenvolvimento de habilidades para a vida.


Outro ponto central foi a relação entre o volume de partidas e a evolução dos jovens atletas. Na avaliação do palestrante, tanto a falta de oportunidades para jogar quanto o excesso de jogos podem prejudicar o desenvolvimento, especialmente quando a busca por resultados imediatos limita a participação de parte do elenco.


- Qual é a dor dos clubes menores no Brasil? Jogam pouco. À medida que eu jogo mais, eu performo mais. Na minha hipótese, após 45 jogos por ano, a performance dos atletas não melhora. Ela gradualmente começa a cair - destacou Gabriel.


O coordenador também chamou a atenção para os efeitos de calendários muito intensos nas categorias de base. Segundo ele, a pressão por resultados pode levar os treinadores a utilizar repetidamente um grupo restrito de atletas, enquanto os demais jogadores recebem poucas oportunidades. Esse cenário, conforme sua análise, compromete não apenas a formação dos jovens, mas também o desenvolvimento dos próprios profissionais responsáveis por treiná-los.


Gabriel apontou ainda dois desafios na formação dos treinadores brasileiros: a dificuldade de lidar com sequências de derrotas e a falta de tempo para desenvolver o trabalho de campo. Em calendários com jogos frequentes, a rotina pode ficar concentrada na recuperação física e na preparação para a próxima partida, reduzindo o espaço para experimentar, avaliar e aprimorar os treinamentos.


PLANEJAMENTO INTENCIONAL E ESTRUTURA DO TREINAMENTO


A necessidade de organizar os processos de formação de maneira consciente e intencional também esteve entre os temas abordados. Para Gabriel, os clubes precisam superar uma rotina limitada ao planejamento de curto prazo e estabelecer objetivos claros para cada atividade, justificando o que se pretende estimular e desenvolver em cada etapa.


Nesse contexto, o palestrante destacou a importância de os coordenadores técnicos contribuírem diretamente para a evolução dos treinadores. Além de organizar a metodologia do clube, esses profissionais devem acompanhar o trabalho das comissões técnicas, estabelecer critérios de avaliação e garantir coerência entre as atividades realizadas e os princípios definidos pela instituição.


O palestrante também dedicou atenção especial às etapas iniciais da formação, sobretudo à faixa etária dos seis aos 11 anos. Em sua avaliação, a redução do tempo de prática espontânea, historicamente proporcionada pelo futsal e pelas brincadeiras de futebol na rua, representa um desafio para o desenvolvimento dos jovens.


Gabriel ponderou que, nessa fase, a exposição à prática é fundamental para a aprendizagem. Por isso, defendeu uma reflexão sobre modelos de treinamento que priorizam excessivamente o controle de carga e acabam limitando as oportunidades de contato das crianças com o jogo.


TRANSIÇÃO ENTRE A BASE E O FUTEBOL PROFISSIONAL


Na segunda parte do encontro, o foco se voltou à transição entre as categorias de base e o futebol profissional. Gabriel abordou situações em que jovens atletas passam a treinar com a equipe principal, mas não recebem oportunidades consistentes de atuação e acabam permanecendo em um estágio intermediário, sem continuidade adequada na formação.


- Os guris sobem para o profissional e não jogam. Eles permanecem em um limbo. Quando descem para jogar no Sub-20, não performam. Passam alguns anos e a joia foi perdida porque a transição foi feita de uma maneira equivocada - observou Gabriel.


Para o palestrante, o processo precisa ser planejado para além da simples aproximação entre um jogador das categorias de base e o elenco profissional. A transição exige integração entre as áreas do clube, definição de objetivos para cada etapa e oportunidades de participação que permitam ao atleta continuar evoluindo, mesmo quando ainda não está pronto para atuar regularmente na equipe principal.


Outro assunto discutido foi a relação entre os contratos de formação, permitidos a partir dos 14 anos, e o desenvolvimento dos jovens jogadores. Gabriel apontou os desafios enfrentados pelos clubes para equilibrar a proteção contratual dos atletas, os valores envolvidos e a construção de uma trajetória esportiva consistente.


Na avaliação do coordenador, determinadas estruturas contratuais podem contribuir para que jovens recebam remunerações elevadas antes de consolidarem seu espaço em campo, criando um descompasso entre as condições financeiras e a experiência esportiva. Para ilustrar essa discussão, estabeleceu um paralelo com a trajetória de Michael Jordan, associando suas conquistas ao desempenho efetivamente alcançado, e contrastou essa lógica com uma realidade em que jovens jogadores podem ser remunerados com base sobretudo no potencial futuro.


O debate reforçou a importância de alinhar expectativas, planejamento de carreira e oportunidades concretas de desenvolvimento, evitando que o potencial identificado nas categorias de base se perca durante a passagem ao profissional.


PROJETO FGF CONECTA


Lançado em 2021, o projeto FGF Conecta visa capacitar os profissionais que atuam nos clubes gaúchos, buscando o aperfeiçoamento dos processos através da troca de experiência com profissionais de alto nível atuantes no futebol nacional e internacional.


Os eventos têm como público-alvo técnicos de futebol, preparadores físicos, graduandos e professores de educação física, dirigentes e demais interessados na área esportiva. A coordenação é dos professores Ademir Calovi e José Cícero Moraes.


Luiz Breves/FGF